segunda-feira, 8 de junho de 2026

um texto dedicado ao mês de junho

 definitivamente 4 semanas de 

funga-fungas

rinites no mínimo absurdas

dedos gelados, pés duros

o céu, porém, extremamente específico

a luz que incide sobre a cidade a qualquer hora

um azul de toda forma anil 



e eu tenho rituais

cheiro de milho cozido invade a casa

e eu saio junto com o sol 

em busca 

do próximo café que queimará minha língua

eu compro passagens para lugares ainda mais frios 

apenas para me arrepender e repetir roupas que amo

eu faço mingau e cubro meu nariz

e leio todos os emails de uma caverna


entro quase que de férias, hiberno, fico torta na cama

digito dela 

tudo a um braço

tudo a um passo





segunda-feira, 13 de abril de 2026

Yet so

 



been obsessively listening to this song and then reading the lyrics. things only björk would. thank you björk <3


I miss you, but I haven't met you yetSo special, but it hasn't happened yetYou are gorgeous, but I haven't met you yetI remember, but it hasn't happened yet
And if you believe in dreamsOr what is more importantThat a dream can come trueI will meet you
I was peeking, but it hasn't happened yetI haven't been given my best souvenirI miss you, but I haven't met you yetI know your habits, but wouldn't recognize you yet
And if you believe in dreamsOr what is more importantThat a dream can come trueI miss you
I'm so impatientI can't stand the waitWhen will I get my cuddleWho are youI know by now that you'll arriveBy the time I stop waiting
I miss you

sexta-feira, 10 de abril de 2026

nem sempre de abismos


 

Existe sim uma força quase que centrípeta, um magnetismo incontrolável, uma vontade quando não um gozo em falar sobre ela: a foice inevitável do tempo. O pum de Deus isso aqui, viver, acordar, ir, se manifestar, fichas caindo, órbitas e colisões. Para então.

E são mortes de um tanto de tipo. Do meu tio Daniel e da forma como ele se foi, do Twitter, da internet social dos anos 2000, do trajeto que eu fazia entre 2006 a 2010. Das minhas pinturinhas com Kiwi. Outras muito mais duras e inexplicáveis - pessoas, sonhos e projetos que morreram cedo demais, antes que a eles eu pudesse dar rostos e viver cheiros.

Vivi lutos, inclusive, de fins ridículos. Das coisas que gostaria de ter dito e das coisas que gostaria de não ter dito, feito. 

Mas não se vive uma vez: se vive e depois se revive as pequenas reminiscências - e largá-las assim, sem propósito, sem rituais, faz de mim uma espécie de outra pessoa. Versões minhas completamente estrangeiras.

E quando tudo isso para mim ser a última vez? o meu último banho com aquele sabonetinho que eu amo, o meu último gole de água com gás são lourenço (ou caxambu!!!), último céu completamente anil em maio, as folhas se desprendendo dos ipês rosas, uma espécie de silêncio úmido. eu que fico amuada quando um mísero xampoo é descontinuado, quem dirá quando eu perceber que estou perto de ser. pior: quando eu sonhar mais um daqueles sonhos que começam super tranquilos e terminam comigo em terceira pessoa vendo uma pessoa que eu não vejo há décadas numa espécie de areia albina sendo engolida por um pássaro gigante. não entender nada e ficar sabendo dias depois: essa pessoa se foi. e todas também um dia. e todas as coisas em geral. sem despedida, sem rituais. 


as montanhas não. nem certas árvores. certos sapos. certos insetos. eles ficarão. e será aquela ladainha de novo: quem veio primeiro? algo me diz que uma pergunta possível seria: quem ficou por último?

tudo isso para dizer que tenho arrependimentos sim. mas também fiz escolhas felizes em momentos inacreditáveis (colisões) que giram em torno, uma espécie de força centrípeta, daquela sede inevitável: o amor? 

sempre ele - no final. seja pela sua presença ou ausência. é isso que me mata.


ouvi tantas vezes esse podcast e se pudesse teria feito só isso. 




terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

these magic mountains



percorro o sinistro, e nele esbarro

num glossário em aberto. 


























um contexto geográfico: a cordilheira do espinhaço é a maior do Brasil. ela estabelece sua infinita grandeza em terras mineiras, entre Serra do Cipó e Lapinha da Serra. as montanhas se entrelaçam até a Bahia, desaguando na Chapada Diamantina.

fico pensando na ancestralidade dessas montanhas, os segredos guardados em suas grutas, silêncio milenar abafado entre vales. me pergunto quantas pessoas romperam com a sociedade e decidiram fazer do seu presente estrada permanente, percorrendo quilômetros, anos e vidas, atravessando mágoas, angústias e saudades.



dessa janela sem esquadrias me pergunto onde estará tudo que me levou aqui. e porque decidi voltar a esse lugar depois de dez anos. e porque são as décadas os marcos temporais para meu regresso, quando não minha partida. 

o que são dez anos para essas montanhas? penso eu. em dez anos eu me movi de mim: mudei de cidade, mudei de casa trezentas vezes, perdi e ganhei e mantive amizades, mudei de emprego, de profissão. comecei do zero algumas vezes. e assim como essa paisagem já não é mais oceano, eu também já não sou tantas coisas, e por isso o espanto de ver que o tempo, embora o mesmo, em distribuição desigual. o que são dez anos para essas montanhas?


nunca saberia dizer se tudo que ouvi foi som ou apenas eco. ou se tudo que vi foi fotografia ou cópia. se atravessei ou fui atravessada. 

é sempre um pouco assim: um pouco disso tudo revolucionando meu nada.


não quero que seja em dez anos o nosso próximo encontro.
desejo que seja em dez meses.

quando eu subir aqueles dois quilômetros de novo, não quero fazê-lo em minutos, mas horas. quero fazer daquele caminho um amuleto. quero ter aquele sossego de quando toda sua energia está em manter o coração dentro dos limites da caixa torácica. e sobretudo, desejo imensamente ter essa memória para sempre comigo mesmo que eu já não suba mais montanhas, ou que não atravesse mais rios. 

para mim, essas montanhas são personagens centrais de um filme documental que continua sendo editado. 

um perfil, para sempre, em mosaico. 

 

domingo, 9 de novembro de 2025

Domingo

 acordei muito tarde e me arrestei até um almoço atrasado. carne para um dia sem café da manhã. depois um sorvete, afinal: domingos.


e por último, filme.

Cléo de 5 às 7.


cenas lindas, vestidos compridos, e pensamentos inundados pelo medo do mistério. silêncio e alguma poesia, para não dizer um filme brutal à vida, quando não graciosa. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

 Três

  1. Tigres tristíssimo

  2. Tropeços atrapalhados

  3. Trejeitos trajados 


Três vezes only Björk would

  1. Bachelorette

  2. Hunter

  3. Possibly Maybe


Três Davids

  1. Lynch

  2. Simon

  3. Chase


Três livros em 2025

  1. Happy hour, Marlowe Granados

  2. The sexual history of the internet, Mindy Seu

  3. Aos teus pés, Ana C


Três mídias 

  1. Escrita

  2. Pintura

  3. Costura


Três seres humanos com quem 

  1. Ag Cook

  2. St Vincent

  3. Paul Thomas Anderson


Three damn lines

  1. Who killed Laura Palmer?

  2. People in NY are better than us because they imagine things they haven't seen

  3. A man gotta have a code


Três pinturas pelas quais entraria no Serasa

  1. New York Movie, Edward Hopper

  2. La grand Guerre, Magritte

  3. The Dream of the Fisherman's Wife, Katsushika Hokusai


Três sensações irrevogáveis

  1. Sextas à noite, surfing the web in computer + headphones

  2. End of the day cigarette (tabaco bolado), noite quente, cozumel

  3. First thing in the morning: suco de caju geladinho batido na hora

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

the best question ever

 who killed Laura Palmer? why did they kill her?

I'm hooked on heavy drugs, my dear diary. shall I call you diane too?


i'd like to begin by saying this first thing which might sound really odd, but when i saw officer Andy for the first time, I had this feeling that he awfully resembles Agent Reid, from Criminal Minds. Both are tall, skinny, golden brown hair. They have some kind of delay on responding to threat or to danger, they conquer and destroy by leaning on some social ackwardness but they're incredibly heart welcoming. 

There is this scene where Andy fails to pull the trigger leading to Copper actually teaching him to build up his confidence to shoot, and eventually Andy simply saves the sheriff by shooting Jaques Renault on the shoulder, in a sort of like "hero's jorney mini plot". This EXACTLY same plot was aired in Criminal Minds. Reid had the exaclty same problem, which ultimately is a free way for us to read this as the level of masculinity in both characters are somehow off comparing to the law enforcement figure, a simbol of power, control, manhood. 



As the whole narrative is unveiled, I had the feeling that part of the reasons behind Laura's murder somehow inspired part of the The Wire's fourth season. The way how Jean Renault smokes cigarretes is EXACLTY the way how The greek smokes his. Also the whole thing about having an international system of drug and human trafficking running in various families like a genetic code, connecting powerful men from all enterprises. 


And the dreams. My favourite part. How the subconscious plays a particular but fundamental role in this TV show deeply intrigues me. the mystery that can never be really solved and yet HERE WE ARE. it is unique how Twin Peaks reassigns the power of intuition as some inexplicable tool towards "the truth", or part of the truth that matters at the moment. Which other TV show does this particular approach to dreams remind you of? Exactly: Sopranos. I guess it goes without saying that Sopranos did something extra or simply different, which was letting US have a peak of his analysis sessions with Dr. Melfi. 



I loved absolutely loved the part of the UFO's and the Air Force's secret mission analysing paranormal (did I see something like that on Fargo?) activity while a wild beast had possessed Leland's body and also that other thing about Copper's late partner wanting revange. All this incredible trama of events and people, really orbiting around each other but never colliding and when they finally did oh my oh my, rest in real damn peace, David. I am particularly thankful for the part where there was a fucking GIANT handing Cooper all the tips to an extraordinary conclusion to everything. 

Somehow and as a first I don't feel like I regret I didn't watch this earlier, because earlier I was watching ALL the cop TV shows that were apparently vastly inspired by Twin Peaks, and no matter that this is 2025, the reddit is full of people in awe by this achievement: presenting a TV production this timeless. (i'm one of them).

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

remember remember


oddly 2024 gave me a few precious things such as


lust

joy

a gorgeous red lipstick


1) i know: three completely unexpected things as mundane as clean t-shirts. by the way: t-shirts only in white. either new or a hundred years old. it reeeeally doesn't matter. nothing, absolutely, nothing trumps fine jeans, a white shirt and a red lipstick. it doesn't matter how far we have come, this is written in stone. 

2) i don't want to sound completely insane (it might be a lil late for that - i can hear insanity from here). i'd rather live in front of my computer (as I am right now) listening to these five songs than doing, i don't know, doing anything else. it might reeeeeallly bear the resemblance of  Lane in Gilmore Girls obsessed over literally any 90's record, but truly, as a music-driven person, any day, crisp or cloudy, i'd survive it with these babies. 

- army dreamers by kate bush

- one for you by the knife

- sexy boy by air 

- violent times by st vincent

- modern love by david bowie

3) i don't know if i have shared this enough: this was the year when i finally met someone who has actually played the piano parts for the unbelievable Phantom Thread. Which means I'm at one person from the iconic Paul Thomas Anderson. Yes! Those funny stories that almost sound like a blunt lie, these are the stuff materials  i want to be sharing more. 

O Trajeto de um Texto Por Alguém-Cidade




Quando leio Alejandro Zambra's me vem como se fosse um filme dirigido por Noah Baumbach, alguma coisa na imagem e no texto busca acurar a paisagem de uma janela sobre a qual já nos debruçamos em vida. Considero-me uma entusiasta deste particular traquejo narrativo, em que a ficção e realidade se confundem, a narrativa se vale do engodo de uma memória geracional, regurgitam-se reflexões sobre a criação literária, quando não sobre o ofício da escrita, abrem-se fendas de relacionamentos que estão a ponto de naufragar,  e o que seria uma assinatura do autor chileno, superações sôfregas, que se dão pela dor particular desvelada junto à dores coletivas. 

(escrito em 13/01/2021)


domingo, 24 de janeiro de 2021

Meu Ano de Descanso e Relaxamento // Ottessa Moshfegh


Em Meu Ano de Descanso e Relaxamento, Ottessa Moshfegh desenrola uma história sobre o sofrimento de uma jovem nova iorquina que  resolve tirar um ano sabático big phármico. A linha temporal que sustenta o enredo se alonga por um ano e meio, durante o qual captura o leitor para flashbacks da infância de uma criança abandonada, evidencia-se a enorme fenda de um casamento marcado pela falta de cumplicidade, intimidade e projeto familiar, pelos comportamentos autodestrutivos da mãe (balizados pelo abuso de álcool e fármacos) e pela ausência silenciosa do pai. 

 

Ottessa Moshfegh escreve um romance sobre a ausência. A começar pela ausência de um nome a protagonista, indicação suprema da banalização de histórias de vidas marcadas pela infelicidade matrimonial, pela depressão, pelo abuso de fármacos, pelo esvaziamento de sentido das produções artísticas, pela superficialidade estética, pela busca incessante do alívio rápido, pela sufocante fragilidade, vulnerabilidade e solidão.

 

Órfã pelo câncer de seu pai e pelo suicídio de sua mãe, a protagonista herdeira tem apenas uma amiga próxima, amizade que merece enorme ressalvas, pela superficilidade no trato e nos gestos, laço apenas mantido em vista da conveniência, uma quer o status e a outra a pequenas parcelas de indulgência. A amiga, Reva, conclama as vozes de uma vida plena quando sofre distúrbios alimentares e passa por luto, trabalho no seio do estresse nova iorquino, falecido World Trade Center.
A decisão por um ano de descanso e relaxamento começa logo após a demissão da protagonista, um local de trabalho que exala assédio, cuja combustão se dá pela banalização do fazer artístico. Para tal, ela então sai à procura de uma psiquiatra e encontra uma que pode responder à sua necessidade de manter-se dopada e em estado forçado de vigília. Ausente, como seus pais, sua amiga, sua profissão, sua vida. A protagonista passa a ser um campo de experimentação fármaco de uma psiquiatra cuja licença médica e comprometimento ético beiram o hilário. Tudo isso poderia ser ainda mais problemático se não fosse justamente por isso a razão da busca bem sucedida.

 

 
Após um ano em extrema intimidade com os efeitos e com as reações colaterais das dezenas de pílulas abusadas diariamente, a protagonista decide deprimir ainda mais o sistema nervoso central com o remédio que efetivamente a ausenta de toda vida “normal” por longos três dias, durante seis meses. Faz um pacto com um antigo colega de trabalho que sua vigília de sucesso seria alvo de uma performance artística para o qual ela concorda em troca de serviços de babá, pizza aos domingos, pijamas limpos e água com gás gourmet. 

 

Quando retoma as chaves do próprio apartamento, trocadas para os últimos meses em hibernação, percebe que sua dor é apenas um grão de areia, imperceptível. 
Sonhamos para esquecer, para lembrar, para autorregular, para ultrapassar, para recorrer, para diagnosticar, dormimos. Dormimos para conseguir. Seja a razão mais íntima ainda merecedora de uma narrativa infinitamente bonita e triste, Meu Ano de Descanso e Relaxamento merece todos os prêmios e traduções. A história do burn out absoluto de todas formas correntes de se viver, em desequilíbrio com as demandas absurdamente ridículas, marcadas pela convivência com pessoas profundamente afetadas pelas violências do universo urbano é  provavelmente uma das poucas histórias que realmente conhecemos. 

 

Meu ano de Descanso e Relaxamento dialoga com uma vasta produção literária, musical e cinematográfica do sofrimento pós-moderno que se refere ao espaço vazio dentro de nós e pela multidão anônima com a qual vivemos todos os dias. Salpicam-se relações mal resolvidas, negação patológica e autodestruição fatal. Paul Thomas Anderson dedicou seus filmes mais conhecidos a histórias sobre a ausência, sobre o abandono, sobre o suicídio.

 

Lil Peep, Seymour Hoffman, Heath Ledger, Bojack Horseman, ícones, personagens que expuseram o estado febril da américa do norte. É sintomático a uma liberdade inexistente, mas performada, humanamente impossível de ser administrada on daily basis sem intervenções, sejam holísticas, sejam alopáticas. Em algum lugar se perdeu a espera pela grandiosidade, a interface mais conhecida da máquina operante nos Estados Unidos, aquela que celebra a imaginação e a expressão como direitos inquestionáveis, deu lugar à percepção imediata um país falido em matéria de amor, de comunidade, de saúde mental.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

if only

 Gosto de como eu me perco muito facilmente de quase tudo que me proponho. E gosto mais ainda de como tudo que me proponho nunca foge de um personagem que lembra muito eu, e gosto de como eu ainda não gosto de mim o suficiente para dive in. O que me move é a sensação de que tenho pouco tempo aqui, de que esvairei depressa demais. Mas quando eu tinha 16 anos me veio muito claro, enquanto eu escrevia uma redação sobre um assunto estúpido, e eu percebi que eu tinha agilidade em escrever mesmo sobre coisas desconhecidas e tediantes. Então acho que todos os meus impulsos eram tentativas de articular uma linguagem própria, não sei se alcancei essa linguagem necessariamente but what a journey this has been! 

Enfim, que 2021 me traga a força para me entregar de forma absoluta e profunda naquilo que eu acredito. Que eu possa articular todos os sentimentos, que eu possa comunicar de forma coerente e honesta, mas ainda com menos pesos e medidas. Sobretudo, quero voltar a estudar, preciso urgentemente ser menos burra, só isso que eu peço. E por último, escrever, escrever e continuar escrevendo. Abaixo segue uma pequena história que escrevi ontem (06/01/2021), se eu vencer minha preguiça pode ser que essa história renda. 


  1. nota de falecimento

Maria deixa alguns vasos de plantas e meia dúzia de amigos próximos desolados. Seu último respiro se deu às 12:35, vítima de parada cardíaca aos 38 anos. Ela era voluntária da Praça Amiga, grupo da terceira idade que revitaliza praças públicas, não tinha nem 10 dias ela transplantou um abacateiro vindo de Piraiçá, tinha dado o nome de Dendê. 

Maria Fernanda tinha alguns hábitos conhecidos pela sua vizinhança, como acordar muito antes de todo mundo e dar uma volta na rua com seu tênis azul furado e uma espécie de cajado com uma garrafa pet na ponta, e após cumprimentar Dona Nanci, Seu Valdomiro e cafungar os cachorros de Salma, ela trazia flores, frutos e sementes para sua casa. 

Maria Fernanda Assis não tinha dívidas ou pendências em seu nome, e já há muito tinha planejado o trimestre das 2 escolas onde dava aula, seus alunos compareceram ao seu enterro mas não entenderam como alguém tão jovem pode morrer de algo que mata sobretudo idosos. Mas Professora Maria Fernanda Assis vinha fazendo um bom trabalho nas escolas e ensinado sobre como cada vez menos existem eventos, situações e fenômenos explicados pelo caminho da lógica, “moramos num país livre”, ela dizia sempre. 

Maria Fernanda Assis escrevia poesias escondido, votava em partidos que sempre perdiam, vestia 38, tinha pés pequenos, 35. Nem 24 horas antes que tinha recebido uma visita na sua casa, era sua amiga Júlia, trazia um novo sabor de chá importado e um calhamaço de 500 páginas, sua tese de doutorado, acendeu um cigarro nervosa e pediu um favor, que lesse. Maria nunca dizia “não”.

Maria Fernanda Assis Cabral deixa muitos livros empoeirados e um kindle com 19 volumes não lidos, no entanto, uma grande prateleira acumula quase 732 cadernos. Sua cozinha, sempre impecável, neste dia com vestígios, canecas, cinzeiro, e uma travessa pequena com restos do que parecia lasanha. Ela costumava sentar na sua varanda às 16 horas para cuidar de suas plantas e sua última visualização no whatsapp foi às 10:38, na tentativa de ligar para o Samu, ninguém atendeu a tempo. Seu último post do instagram ela sorria junto a 32 crianças no que lembra uma excursão. Na sua carteira, um post it com 4 telefones, o do trabalho, o do orelhão público na praça da sua rua, de Júlia e do zelador do seu prédio. 

Ninguém sabe dizer, mas na mesa de apoio de frente ao sofá uma caixa de sapatos da nike carcomido por cupim jazia e dentro uma coletânea de cartas nunca enviadas, com selo, datadas. A última pessoa a ocupar seu apartamento e a contemplá-lo como se ali fosse um jardim foi justamente Júlia, distribuiu pertences como se entregasse partes deste mesmo coração que falhou em bater, pensando em como a única que poderia ter ficado deveria ter sido sua amiga, mas este é um país livre, inclusive para ir embora dele. Por fim, administrou um cigarro na boca, as duas mãos se ocupavam com caixas contendo cadernos e cartas. 

Maria Fernanda Assis Cabral, professora de literatura como ocupação central e facilitadora de projetos de hortas públicas e praças revitalizadas levava uma vida pacata no centro de Belo Horizonte quando morreu, aos 38 anos, no dia 28 de novembro deste ano, de infarto do miocárdio, seus últimos exames não continham informações que pudessem explicar este evento. 




sábado, 31 de outubro de 2020

Morning Journal - 31/10

Para esta jornada no interior de uma pequena baleia que dorme em cima de uma alga ancestral - leve cadernos.

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Primeiro, não sabia muito bem o que escrever. Ao mesmo tempo, que as insurgências à vista. Uma viagem este mês, posso dizer isso. Esses meses e sobretudo este ano, uma jornada, sim, talvez como se fosse uma jornada no interior de uma pequena baleia dormindo em cima de uma alga ancestral. Uma baby baleia. 
Amo este álbum: St. Vincent Deluxe, every tear disappear. 

Uma saudade imensa de escrever redações sobre férias - mas já tinha esquecido como se pronunciava férias. Uma enorme desconfiguração dos caráteres e sobretudo o meu próprio, eu precisei reencontrar quais e de que maneira arcar com as decisões: assumir um personagem.

Então nada muito justo, declaro que este ano foi de trabalho, não sei em por onde anda meu saturno, algo me diz que na casa do caralho. Ou capricórnio? Se movimente, humana. 
Ginásticas. Então assim: eu lutei. Sabe, eu lutei. 
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Outra coisa, 2019 me deu uma solidão que eu não pedi (mesmo cercada de gente¿).
Mas 2020 me deu a paz que essa solidão queria de mim, então este conflito não é mais existencial. Não são mais meses sem a paz que dá conta de uma leitura de livro, segurar o livro com as duas mãos e efetivamente: lê-los. Como se todos os estímulos externos tivessem perdido essa batalha. 
Mas não a guerra.
100% burned out de internet ( e ainda aqui, irônico!).
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Ainda ecoa em mim:
"Entre tantas coisas no fim de um relacionamento, é uma língua que se extingue." 
E gosto de pensar no seu contrário - que são relacionamentos que falam novas línguas? 
Fui à São Paulo e nesse momento ouvia a cidade, e nas conversas das pessoas elas relatando como foram de quarentena, com quem estiveram, o que perderam. Senti lá um ciclo dando boas vindas, e de fato, uma fluência em uma língua sem gramática. Passei muito frio inclusive, nove fucking graus no meio de outubro, o que???

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Não quero ser entendida, se quisesse eu teria feito uma dissertação. Cês acreditam que eu SONHEI com essa frase e me senti contemplada? Gostaria de ter contexto para dizer isso, então inventei este texto. 
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A ideia de que se pode escrever sem se preocupar em ser entendida é um alívio, haja vista as simulações e estar realmente kkk on. Online para entender, sim eu entendo, e respondo e ensaio uma ação e tudo é um gasto de energia absurdo.
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Percebi que aeroportos me colocam no estágio mais alto da produção textual. Olhando para o mar esses dias eu pensei: quero escrever um livro. E não sei como começar, então estou investigando. 


(este exercício consiste em escrever o que vem à cabeça, de preferência às manhãs. uma escrita livre, sem pudor, sem borrachas - sobre o que vier. quando lembro, faço este exercício e sinto que desmancho uma força que parece vir de dentro, sei lá)


sexta-feira, 8 de maio de 2020

covdezenove



a angústia do caos também está na busca pela cura, pelo ponto final, mesmo que metafórico. mas a maior das angústias talvez seja se dar conta de que, mesmo nos textos, os pontos finais anunciam começos. um gira-gira imprevisível que folga e aperta. quando tudo supostamente for declarado viável de novo, vou continuar usando máscaras. 

são quase décadas respirando um ar tão rarefeito quanto debaixo da máscara; entre tantos surtos, suspiros e alívios percebo que são as telas, mesmo as frestas que me protegem. ou são essas fronteiras e entre elas a ideia de que há proteção, ou quem sabe o desejo. o erro do ocidente está na interpretação dos textos que prometiam salvação, como um evento final, contra o qual nem mesmo os abalos sísmicos, os vulcões, as erosões seriam capazes de reverter. está salvo o homem de seus pecados. 

o tempo em espiral, a repetir e contorcer os mecanismos de proteção nos colocaram a sentir que mesmo dentre tantas curas estamos aqui pelos batimentos cardíacos. e que um coração bate até não bater mais. estamos curados até não estar mais. e assim sucessivamente até deformarmos a paisagens com nossos corpos cavados nelas. 

o fim nem mesmo na morte está, quando as tangerinas apodrecem elas viram como se fossem uma gosma que se você juntar às demais tangerinas do mundo, o sumo podre é capaz de fazer bebês alhos-porós felizes. são também as decomposições que envergam as vivências. mesmo as coisas que matam, como terremotos, capitalismo, doenças e etc revivem ódio, incerteza, pânico. 

dentro das intenções, dos esforços, das vontades, dos desejos pela cisão definitiva do sofrimento ele se mostra o material de transformação das coisas vivas; do aprendizado; da adaptação; da sucessão de poderes; do aumento; da diminuição. mesmo a estática engana, muitas das estátuas só estão ali por convenção de sua importância naquele recorte histórico. 





terça-feira, 24 de março de 2020

como se fosse





como se fosse a casa, P.45

as casas abandonam a si mesmas
fogem de si mesmas
um dia você retorna
e a casa não está mais lá
está apenas seu molde 
casca ou carcaça
sai então à caça
da casa 
em viagem 
ou fica lá
onde já não está


Ana Martins Marques, eu não conhecia até reconhecer nos poemas dela alguma coisa incomunicável mas que lembra os desdobramentos comuns, a casa, a ideia de pertencimento, e sobretudo seu contrário, despertencer, esvair-se, buscar mesmo no fim da internet e desistir de encontrar, e então perceber. em mim, em nós, em você.

Reside na minha preocupação, na ânsia e nas vigílias noturnas como vim parar aqui e mesmo recorrendo aos recursos todos, mesmo sabendo que fui eu que vim parar aqui, ainda me parece alheio estar aqui. que são essas memórias, eventos e sentimentos que compõem um registro mais ou menos fiel da minha chegada e partida. que nas várias casas eu busquei uma casa, e como isso não era possível no momento eu saí realmente à caça. não sei se de uma casa mesmo, talvez tivesse saído para desconhecer as fundações e avistar nas semelhanças de trajeto um lugar. 

eu gosto muito das abstrações que sustentam o "como se fosse". como se a gente pudesse fazer tantas coisas e como se fossem essas coisas que determinariam tantas outras coisas, mas como a gente pode fazer coisas em número limitado a gente meio que acaba determinado. e como estão nos lugares as pistas do nosso alvoroço, se perder e sobretudo esquecer que está perdido e perceber. em mim, em nós, em você.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

tudo que eu sou demora



é uma pena a vida em quinze minutos calçar sapatos comer e escovar os dentes e acreditar
que essas são as etapas que farão tudo dar certo nas próximas 24 horas mas no meio do caminho um sinal de pare mais demorado que o costume e todo um planejamento
se esvai

é uma pena
calçar sapatos para aguentar
comer para conseguir
escovar os dentes para sorrir
sem culpa
e do início ao fim
olhares e cobranças: depois eu te mando um e mail explicando melhor a situação
é que as coisas saíram do controle enquanto eu estava tirando cópias
mas eu consegui reverter a situação
vestindo um
traje à rigor
ninguém percebeu que eu
sou
uma farsa

é uma pena
realmente
que eu não tenha conseguido comer
calçar o par adequado
e sorrir para um dia
incontrolável
eu sinto que tudo que eu sou
demora
para ser outra coisa fora de mim
mas dentro
permaneço a atriz que preciso ser








sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

just the same but brand new



ainda sobre meu processo no tcc eu escrevi sobre a morte. para além do tcc em si, mas a fase em que eu estava. meio que jogando papéis fora, dando objetos acumulados para amigos, me convencendo da escolha de mudar assim abruptamente como uma atitude madura, e fechando ciclos, dizendo até logo mais para tantos e querendo que tudo coubesse em uma mochila. 

mas além de a morte gerar reflexões altamente angustiantes, eu não sabia como abordá-la e apresentá-la como uma experiência legítima - uma escrita com a qual eu tivesse a mínima relação apesar de sempre ter a morte como tema ou fenômeno próximo a mim. 

de um texto o qual tenho para mim como muito próximo, St Vincent afirma que enquanto estamos no processo é difícil processá-lo. Eu não conseguia escrever porque não tinha internalizado, percebido, sentido aquele momento - profundamente doloroso e amplamente confuso.

Só agora, depois de praticamente dois anos desse lugar é que eu entendo o que é morrer metaforicamente, talvez a única forma de apreciar a morte como ela o é enquanto vivos.

Entendo só após meses no silêncio que precede a sensação próxima de estar livre: 

a) parece que os obscuros processos precisam de paciência de muitas partes, mas principalmente da parte com a qual você tem que conviver todos os dias: você mesmo. 

b) parece que quando você sabe que você está deixando alguma coisa muito significativa da forma que é ser significativa de outra forma você está já aceitando o fim.

c) sou ainda mais profundamente agradecida por todas as pessoas, meus amigos, meus pais, que reconheceram alguma coisa em mim que não se revelaria até eu morrer e que até hoje eu custo a descobrir. 

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meses antes de entrar nessa obsessão pela morte eu:

. tinha passado por relacionamentos que foram escolas, mas o mais modificador de todas as naturezas - no como dizer, no como compartilhar, no quando ouvir, no quando ser a sensatez - com certeza diz muito sobre aquele dia em que eu pela primeira vez quis de verdade que eu pudesse respeitar que só porque uma coisa é muito linda não significa que vai durar e que isso não precisa se tornar um ultimato do que foi construído, mas querer que a comunicação sirva para que depois cada uma das partes consiga mandar e-mails longos sobre como cada um luta em diferentes partes e acredita no outro, admira o outro e o deseja o melhor. 

. tinha conhecido verdadeiros adultos, que viveram o silêncio e tinham muito dele em si e que talvez essa seja a coisa mais atraente sobre alguém.

. tinha aprendido a reconhecer limites, sobretudo os emocionais. ultrapassá-los prevê uma elasticidade que pode ser uma das explicações sobre a morte. 

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se eu soubesse que tudo daria em mel, eu teria acalmado essa pessoinha que vos escreve. mas eu disse, eu disse muitas vezes a mim mesma que eu estava ali. e que existia muito amor no mundo, e que aquele ninho quentinho serviria para reafirmar as trajetórias que nos mostram quem realmente somos - para nós e para outros.

mas eu não sabia.

eu fiz o melhor que eu pude entendendo que para entender a morte e conseguir escrever sobre ela eu teria de: morrer.

(just the same but brandnew)

um texto dedicado ao mês de junho

 definitivamente 4 semanas de  funga-fungas rinites no mínimo absurdas dedos gelados, pés duros o céu, porém, extremamente específico a luz ...