Gosto de como eu me perco muito facilmente de quase tudo que me proponho. E gosto mais ainda de como tudo que me proponho nunca foge de um personagem que lembra muito eu, e gosto de como eu ainda não gosto de mim o suficiente para dive in. O que me move é a sensação de que tenho pouco tempo aqui, de que esvairei depressa demais. Mas quando eu tinha 16 anos me veio muito claro, enquanto eu escrevia uma redação sobre um assunto estúpido, e eu percebi que eu tinha agilidade em escrever mesmo sobre coisas desconhecidas e tediantes. Então acho que todos os meus impulsos eram tentativas de articular uma linguagem própria, não sei se alcancei essa linguagem necessariamente but what a journey this has been!
Enfim, que 2021 me traga a força para me entregar de forma absoluta e profunda naquilo que eu acredito. Que eu possa articular todos os sentimentos, que eu possa comunicar de forma coerente e honesta, mas ainda com menos pesos e medidas. Sobretudo, quero voltar a estudar, preciso urgentemente ser menos burra, só isso que eu peço. E por último, escrever, escrever e continuar escrevendo. Abaixo segue uma pequena história que escrevi ontem (06/01/2021), se eu vencer minha preguiça pode ser que essa história renda.
nota de falecimento
Maria deixa alguns vasos de plantas e meia dúzia de amigos próximos desolados. Seu último respiro se deu às 12:35, vítima de parada cardíaca aos 38 anos. Ela era voluntária da Praça Amiga, grupo da terceira idade que revitaliza praças públicas, não tinha nem 10 dias ela transplantou um abacateiro vindo de Piraiçá, tinha dado o nome de Dendê.
Maria Fernanda tinha alguns hábitos conhecidos pela sua vizinhança, como acordar muito antes de todo mundo e dar uma volta na rua com seu tênis azul furado e uma espécie de cajado com uma garrafa pet na ponta, e após cumprimentar Dona Nanci, Seu Valdomiro e cafungar os cachorros de Salma, ela trazia flores, frutos e sementes para sua casa.
Maria Fernanda Assis não tinha dívidas ou pendências em seu nome, e já há muito tinha planejado o trimestre das 2 escolas onde dava aula, seus alunos compareceram ao seu enterro mas não entenderam como alguém tão jovem pode morrer de algo que mata sobretudo idosos. Mas Professora Maria Fernanda Assis vinha fazendo um bom trabalho nas escolas e ensinado sobre como cada vez menos existem eventos, situações e fenômenos explicados pelo caminho da lógica, “moramos num país livre”, ela dizia sempre.
Maria Fernanda Assis escrevia poesias escondido, votava em partidos que sempre perdiam, vestia 38, tinha pés pequenos, 35. Nem 24 horas antes que tinha recebido uma visita na sua casa, era sua amiga Júlia, trazia um novo sabor de chá importado e um calhamaço de 500 páginas, sua tese de doutorado, acendeu um cigarro nervosa e pediu um favor, que lesse. Maria nunca dizia “não”.
Maria Fernanda Assis Cabral deixa muitos livros empoeirados e um kindle com 19 volumes não lidos, no entanto, uma grande prateleira acumula quase 732 cadernos. Sua cozinha, sempre impecável, neste dia com vestígios, canecas, cinzeiro, e uma travessa pequena com restos do que parecia lasanha. Ela costumava sentar na sua varanda às 16 horas para cuidar de suas plantas e sua última visualização no whatsapp foi às 10:38, na tentativa de ligar para o Samu, ninguém atendeu a tempo. Seu último post do instagram ela sorria junto a 32 crianças no que lembra uma excursão. Na sua carteira, um post it com 4 telefones, o do trabalho, o do orelhão público na praça da sua rua, de Júlia e do zelador do seu prédio.
Ninguém sabe dizer, mas na mesa de apoio de frente ao sofá uma caixa de sapatos da nike carcomido por cupim jazia e dentro uma coletânea de cartas nunca enviadas, com selo, datadas. A última pessoa a ocupar seu apartamento e a contemplá-lo como se ali fosse um jardim foi justamente Júlia, distribuiu pertences como se entregasse partes deste mesmo coração que falhou em bater, pensando em como a única que poderia ter ficado deveria ter sido sua amiga, mas este é um país livre, inclusive para ir embora dele. Por fim, administrou um cigarro na boca, as duas mãos se ocupavam com caixas contendo cadernos e cartas.
Maria Fernanda Assis Cabral, professora de literatura como ocupação central e facilitadora de projetos de hortas públicas e praças revitalizadas levava uma vida pacata no centro de Belo Horizonte quando morreu, aos 38 anos, no dia 28 de novembro deste ano, de infarto do miocárdio, seus últimos exames não continham informações que pudessem explicar este evento.
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