domingo, 24 de janeiro de 2021

Meu Ano de Descanso e Relaxamento // Ottessa Moshfegh


Em Meu Ano de Descanso e Relaxamento, Ottessa Moshfegh desenrola uma história sobre o sofrimento de uma jovem nova iorquina que  resolve tirar um ano sabático big phármico. A linha temporal que sustenta o enredo se alonga por um ano e meio, durante o qual captura o leitor para flashbacks da infância de uma criança abandonada, evidencia-se a enorme fenda de um casamento marcado pela falta de cumplicidade, intimidade e projeto familiar, pelos comportamentos autodestrutivos da mãe (balizados pelo abuso de álcool e fármacos) e pela ausência silenciosa do pai. 

 

Ottessa Moshfegh escreve um romance sobre a ausência. A começar pela ausência de um nome a protagonista, indicação suprema da banalização de histórias de vidas marcadas pela infelicidade matrimonial, pela depressão, pelo abuso de fármacos, pelo esvaziamento de sentido das produções artísticas, pela superficialidade estética, pela busca incessante do alívio rápido, pela sufocante fragilidade, vulnerabilidade e solidão.

 

Órfã pelo câncer de seu pai e pelo suicídio de sua mãe, a protagonista herdeira tem apenas uma amiga próxima, amizade que merece enorme ressalvas, pela superficilidade no trato e nos gestos, laço apenas mantido em vista da conveniência, uma quer o status e a outra a pequenas parcelas de indulgência. A amiga, Reva, conclama as vozes de uma vida plena quando sofre distúrbios alimentares e passa por luto, trabalho no seio do estresse nova iorquino, falecido World Trade Center.
A decisão por um ano de descanso e relaxamento começa logo após a demissão da protagonista, um local de trabalho que exala assédio, cuja combustão se dá pela banalização do fazer artístico. Para tal, ela então sai à procura de uma psiquiatra e encontra uma que pode responder à sua necessidade de manter-se dopada e em estado forçado de vigília. Ausente, como seus pais, sua amiga, sua profissão, sua vida. A protagonista passa a ser um campo de experimentação fármaco de uma psiquiatra cuja licença médica e comprometimento ético beiram o hilário. Tudo isso poderia ser ainda mais problemático se não fosse justamente por isso a razão da busca bem sucedida.

 

 
Após um ano em extrema intimidade com os efeitos e com as reações colaterais das dezenas de pílulas abusadas diariamente, a protagonista decide deprimir ainda mais o sistema nervoso central com o remédio que efetivamente a ausenta de toda vida “normal” por longos três dias, durante seis meses. Faz um pacto com um antigo colega de trabalho que sua vigília de sucesso seria alvo de uma performance artística para o qual ela concorda em troca de serviços de babá, pizza aos domingos, pijamas limpos e água com gás gourmet. 

 

Quando retoma as chaves do próprio apartamento, trocadas para os últimos meses em hibernação, percebe que sua dor é apenas um grão de areia, imperceptível. 
Sonhamos para esquecer, para lembrar, para autorregular, para ultrapassar, para recorrer, para diagnosticar, dormimos. Dormimos para conseguir. Seja a razão mais íntima ainda merecedora de uma narrativa infinitamente bonita e triste, Meu Ano de Descanso e Relaxamento merece todos os prêmios e traduções. A história do burn out absoluto de todas formas correntes de se viver, em desequilíbrio com as demandas absurdamente ridículas, marcadas pela convivência com pessoas profundamente afetadas pelas violências do universo urbano é  provavelmente uma das poucas histórias que realmente conhecemos. 

 

Meu ano de Descanso e Relaxamento dialoga com uma vasta produção literária, musical e cinematográfica do sofrimento pós-moderno que se refere ao espaço vazio dentro de nós e pela multidão anônima com a qual vivemos todos os dias. Salpicam-se relações mal resolvidas, negação patológica e autodestruição fatal. Paul Thomas Anderson dedicou seus filmes mais conhecidos a histórias sobre a ausência, sobre o abandono, sobre o suicídio.

 

Lil Peep, Seymour Hoffman, Heath Ledger, Bojack Horseman, ícones, personagens que expuseram o estado febril da américa do norte. É sintomático a uma liberdade inexistente, mas performada, humanamente impossível de ser administrada on daily basis sem intervenções, sejam holísticas, sejam alopáticas. Em algum lugar se perdeu a espera pela grandiosidade, a interface mais conhecida da máquina operante nos Estados Unidos, aquela que celebra a imaginação e a expressão como direitos inquestionáveis, deu lugar à percepção imediata um país falido em matéria de amor, de comunidade, de saúde mental.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

if only

 Gosto de como eu me perco muito facilmente de quase tudo que me proponho. E gosto mais ainda de como tudo que me proponho nunca foge de um personagem que lembra muito eu, e gosto de como eu ainda não gosto de mim o suficiente para dive in. O que me move é a sensação de que tenho pouco tempo aqui, de que esvairei depressa demais. Mas quando eu tinha 16 anos me veio muito claro, enquanto eu escrevia uma redação sobre um assunto estúpido, e eu percebi que eu tinha agilidade em escrever mesmo sobre coisas desconhecidas e tediantes. Então acho que todos os meus impulsos eram tentativas de articular uma linguagem própria, não sei se alcancei essa linguagem necessariamente but what a journey this has been! 

Enfim, que 2021 me traga a força para me entregar de forma absoluta e profunda naquilo que eu acredito. Que eu possa articular todos os sentimentos, que eu possa comunicar de forma coerente e honesta, mas ainda com menos pesos e medidas. Sobretudo, quero voltar a estudar, preciso urgentemente ser menos burra, só isso que eu peço. E por último, escrever, escrever e continuar escrevendo. Abaixo segue uma pequena história que escrevi ontem (06/01/2021), se eu vencer minha preguiça pode ser que essa história renda. 


  1. nota de falecimento

Maria deixa alguns vasos de plantas e meia dúzia de amigos próximos desolados. Seu último respiro se deu às 12:35, vítima de parada cardíaca aos 38 anos. Ela era voluntária da Praça Amiga, grupo da terceira idade que revitaliza praças públicas, não tinha nem 10 dias ela transplantou um abacateiro vindo de Piraiçá, tinha dado o nome de Dendê. 

Maria Fernanda tinha alguns hábitos conhecidos pela sua vizinhança, como acordar muito antes de todo mundo e dar uma volta na rua com seu tênis azul furado e uma espécie de cajado com uma garrafa pet na ponta, e após cumprimentar Dona Nanci, Seu Valdomiro e cafungar os cachorros de Salma, ela trazia flores, frutos e sementes para sua casa. 

Maria Fernanda Assis não tinha dívidas ou pendências em seu nome, e já há muito tinha planejado o trimestre das 2 escolas onde dava aula, seus alunos compareceram ao seu enterro mas não entenderam como alguém tão jovem pode morrer de algo que mata sobretudo idosos. Mas Professora Maria Fernanda Assis vinha fazendo um bom trabalho nas escolas e ensinado sobre como cada vez menos existem eventos, situações e fenômenos explicados pelo caminho da lógica, “moramos num país livre”, ela dizia sempre. 

Maria Fernanda Assis escrevia poesias escondido, votava em partidos que sempre perdiam, vestia 38, tinha pés pequenos, 35. Nem 24 horas antes que tinha recebido uma visita na sua casa, era sua amiga Júlia, trazia um novo sabor de chá importado e um calhamaço de 500 páginas, sua tese de doutorado, acendeu um cigarro nervosa e pediu um favor, que lesse. Maria nunca dizia “não”.

Maria Fernanda Assis Cabral deixa muitos livros empoeirados e um kindle com 19 volumes não lidos, no entanto, uma grande prateleira acumula quase 732 cadernos. Sua cozinha, sempre impecável, neste dia com vestígios, canecas, cinzeiro, e uma travessa pequena com restos do que parecia lasanha. Ela costumava sentar na sua varanda às 16 horas para cuidar de suas plantas e sua última visualização no whatsapp foi às 10:38, na tentativa de ligar para o Samu, ninguém atendeu a tempo. Seu último post do instagram ela sorria junto a 32 crianças no que lembra uma excursão. Na sua carteira, um post it com 4 telefones, o do trabalho, o do orelhão público na praça da sua rua, de Júlia e do zelador do seu prédio. 

Ninguém sabe dizer, mas na mesa de apoio de frente ao sofá uma caixa de sapatos da nike carcomido por cupim jazia e dentro uma coletânea de cartas nunca enviadas, com selo, datadas. A última pessoa a ocupar seu apartamento e a contemplá-lo como se ali fosse um jardim foi justamente Júlia, distribuiu pertences como se entregasse partes deste mesmo coração que falhou em bater, pensando em como a única que poderia ter ficado deveria ter sido sua amiga, mas este é um país livre, inclusive para ir embora dele. Por fim, administrou um cigarro na boca, as duas mãos se ocupavam com caixas contendo cadernos e cartas. 

Maria Fernanda Assis Cabral, professora de literatura como ocupação central e facilitadora de projetos de hortas públicas e praças revitalizadas levava uma vida pacata no centro de Belo Horizonte quando morreu, aos 38 anos, no dia 28 de novembro deste ano, de infarto do miocárdio, seus últimos exames não continham informações que pudessem explicar este evento. 




um texto dedicado ao mês de junho

 definitivamente 4 semanas de  funga-fungas rinites no mínimo absurdas dedos gelados, pés duros o céu, porém, extremamente específico a luz ...