ainda sobre meu processo no tcc eu escrevi sobre a morte. para além do tcc em si, mas a fase em que eu estava. meio que jogando papéis fora, dando objetos acumulados para amigos, me convencendo da escolha de mudar assim abruptamente como uma atitude madura, e fechando ciclos, dizendo até logo mais para tantos e querendo que tudo coubesse em uma mochila.
mas além de a morte gerar reflexões altamente angustiantes, eu não sabia como abordá-la e apresentá-la como uma experiência legítima - uma escrita com a qual eu tivesse a mínima relação apesar de sempre ter a morte como tema ou fenômeno próximo a mim.
de um texto o qual tenho para mim como muito próximo, St Vincent afirma que enquanto estamos no processo é difícil processá-lo. Eu não conseguia escrever porque não tinha internalizado, percebido, sentido aquele momento - profundamente doloroso e amplamente confuso.
Só agora, depois de praticamente dois anos desse lugar é que eu entendo o que é morrer metaforicamente, talvez a única forma de apreciar a morte como ela o é enquanto vivos.
Entendo só após meses no silêncio que precede a sensação próxima de estar livre:
a) parece que os obscuros processos precisam de paciência de muitas partes, mas principalmente da parte com a qual você tem que conviver todos os dias: você mesmo.
b) parece que quando você sabe que você está deixando alguma coisa muito significativa da forma que é ser significativa de outra forma você está já aceitando o fim.
c) sou ainda mais profundamente agradecida por todas as pessoas, meus amigos, meus pais, que reconheceram alguma coisa em mim que não se revelaria até eu morrer e que até hoje eu custo a descobrir.
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meses antes de entrar nessa obsessão pela morte eu:
. tinha passado por relacionamentos que foram escolas, mas o mais modificador de todas as naturezas - no como dizer, no como compartilhar, no quando ouvir, no quando ser a sensatez - com certeza diz muito sobre aquele dia em que eu pela primeira vez quis de verdade que eu pudesse respeitar que só porque uma coisa é muito linda não significa que vai durar e que isso não precisa se tornar um ultimato do que foi construído, mas querer que a comunicação sirva para que depois cada uma das partes consiga mandar e-mails longos sobre como cada um luta em diferentes partes e acredita no outro, admira o outro e o deseja o melhor.
. tinha conhecido verdadeiros adultos, que viveram o silêncio e tinham muito dele em si e que talvez essa seja a coisa mais atraente sobre alguém.
. tinha aprendido a reconhecer limites, sobretudo os emocionais. ultrapassá-los prevê uma elasticidade que pode ser uma das explicações sobre a morte.
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se eu soubesse que tudo daria em mel, eu teria acalmado essa pessoinha que vos escreve. mas eu disse, eu disse muitas vezes a mim mesma que eu estava ali. e que existia muito amor no mundo, e que aquele ninho quentinho serviria para reafirmar as trajetórias que nos mostram quem realmente somos - para nós e para outros.
mas eu não sabia.
eu fiz o melhor que eu pude entendendo que para entender a morte e conseguir escrever sobre ela eu teria de: morrer.
(just the same but brandnew)
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