como se fosse a casa, P.45
as casas abandonam a si mesmas
fogem de si mesmas
um dia você retorna
e a casa não está mais lá
está apenas seu molde
casca ou carcaça
sai então à caça
da casa
em viagem
ou fica lá
onde já não está
Ana Martins Marques, eu não conhecia até reconhecer nos poemas dela alguma coisa incomunicável mas que lembra os desdobramentos comuns, a casa, a ideia de pertencimento, e sobretudo seu contrário, despertencer, esvair-se, buscar mesmo no fim da internet e desistir de encontrar, e então perceber. em mim, em nós, em você.
Reside na minha preocupação, na ânsia e nas vigílias noturnas como vim parar aqui e mesmo recorrendo aos recursos todos, mesmo sabendo que fui eu que vim parar aqui, ainda me parece alheio estar aqui. que são essas memórias, eventos e sentimentos que compõem um registro mais ou menos fiel da minha chegada e partida. que nas várias casas eu busquei uma casa, e como isso não era possível no momento eu saí realmente à caça. não sei se de uma casa mesmo, talvez tivesse saído para desconhecer as fundações e avistar nas semelhanças de trajeto um lugar.
eu gosto muito das abstrações que sustentam o "como se fosse". como se a gente pudesse fazer tantas coisas e como se fossem essas coisas que determinariam tantas outras coisas, mas como a gente pode fazer coisas em número limitado a gente meio que acaba determinado. e como estão nos lugares as pistas do nosso alvoroço, se perder e sobretudo esquecer que está perdido e perceber. em mim, em nós, em você.
