terça-feira, 25 de fevereiro de 2020
tudo que eu sou demora
é uma pena a vida em quinze minutos calçar sapatos comer e escovar os dentes e acreditar
que essas são as etapas que farão tudo dar certo nas próximas 24 horas mas no meio do caminho um sinal de pare mais demorado que o costume e todo um planejamento
se esvai
é uma pena
calçar sapatos para aguentar
comer para conseguir
escovar os dentes para sorrir
sem culpa
e do início ao fim
olhares e cobranças: depois eu te mando um e mail explicando melhor a situação
é que as coisas saíram do controle enquanto eu estava tirando cópias
mas eu consegui reverter a situação
vestindo um
traje à rigor
ninguém percebeu que eu
sou
uma farsa
é uma pena
realmente
que eu não tenha conseguido comer
calçar o par adequado
e sorrir para um dia
incontrolável
eu sinto que tudo que eu sou
demora
para ser outra coisa fora de mim
mas dentro
permaneço a atriz que preciso ser
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
just the same but brand new
ainda sobre meu processo no tcc eu escrevi sobre a morte. para além do tcc em si, mas a fase em que eu estava. meio que jogando papéis fora, dando objetos acumulados para amigos, me convencendo da escolha de mudar assim abruptamente como uma atitude madura, e fechando ciclos, dizendo até logo mais para tantos e querendo que tudo coubesse em uma mochila.
mas além de a morte gerar reflexões altamente angustiantes, eu não sabia como abordá-la e apresentá-la como uma experiência legítima - uma escrita com a qual eu tivesse a mínima relação apesar de sempre ter a morte como tema ou fenômeno próximo a mim.
de um texto o qual tenho para mim como muito próximo, St Vincent afirma que enquanto estamos no processo é difícil processá-lo. Eu não conseguia escrever porque não tinha internalizado, percebido, sentido aquele momento - profundamente doloroso e amplamente confuso.
Só agora, depois de praticamente dois anos desse lugar é que eu entendo o que é morrer metaforicamente, talvez a única forma de apreciar a morte como ela o é enquanto vivos.
Entendo só após meses no silêncio que precede a sensação próxima de estar livre:
a) parece que os obscuros processos precisam de paciência de muitas partes, mas principalmente da parte com a qual você tem que conviver todos os dias: você mesmo.
b) parece que quando você sabe que você está deixando alguma coisa muito significativa da forma que é ser significativa de outra forma você está já aceitando o fim.
c) sou ainda mais profundamente agradecida por todas as pessoas, meus amigos, meus pais, que reconheceram alguma coisa em mim que não se revelaria até eu morrer e que até hoje eu custo a descobrir.
-
meses antes de entrar nessa obsessão pela morte eu:
. tinha passado por relacionamentos que foram escolas, mas o mais modificador de todas as naturezas - no como dizer, no como compartilhar, no quando ouvir, no quando ser a sensatez - com certeza diz muito sobre aquele dia em que eu pela primeira vez quis de verdade que eu pudesse respeitar que só porque uma coisa é muito linda não significa que vai durar e que isso não precisa se tornar um ultimato do que foi construído, mas querer que a comunicação sirva para que depois cada uma das partes consiga mandar e-mails longos sobre como cada um luta em diferentes partes e acredita no outro, admira o outro e o deseja o melhor.
. tinha conhecido verdadeiros adultos, que viveram o silêncio e tinham muito dele em si e que talvez essa seja a coisa mais atraente sobre alguém.
. tinha aprendido a reconhecer limites, sobretudo os emocionais. ultrapassá-los prevê uma elasticidade que pode ser uma das explicações sobre a morte.
-
se eu soubesse que tudo daria em mel, eu teria acalmado essa pessoinha que vos escreve. mas eu disse, eu disse muitas vezes a mim mesma que eu estava ali. e que existia muito amor no mundo, e que aquele ninho quentinho serviria para reafirmar as trajetórias que nos mostram quem realmente somos - para nós e para outros.
mas eu não sabia.
eu fiz o melhor que eu pude entendendo que para entender a morte e conseguir escrever sobre ela eu teria de: morrer.
(just the same but brandnew)
ocasiões
- entre:
a jovem que eu não consigo mais ser
&
a adulta que ainda preciso me tornar.
uma lacuna de nós duas
feita
à serviço de alguma coisa
para depois daqui
estamos fechando para abrir melhor
(a quem)
expansão em desenvolvimento
palavras que não mudam fácil
como o vento
nós estamos aqui
para onde quer que eu vá
sentindo pensando atrasando and correndo
e por mais terrível que o que era pra ser bonito seja
mais do que isso é quando nada há
para sentir, errar
nós estamos aqui
para onde quer que eu vá
alguém melhor do que eu
do que nós
não irá nos salvar
acredite que mesmo da mais profunda
imersão no vazio
alguma vontade pode simplesmente se revelar
e quando corpo e desejo se fundirem
quem sabe
continuaremos aqui
apesar
da jovem que queria ser
e
da adulta que jamais será
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