quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Objetos Roubados Pelos Pequenos Seres

Dia desses perdi minha pentel dourada 0.5 mm. 

Fiquei desolada talqualmente há quinze anos atrás quando perdi meu estojo com todas as minhas canetinhas. Tenho especial apego aos materiais de escritório, sobretudo pela minha lapiseira que meu pai me deu, talvez ele nem se lembre, mas foi ele que escolheu, com seus certeiros olhos azuis, aquele estojinho com uma lapiseira e uma caneta, as duas agora nos achados e perdidos do mundo dos pequenos seres que levam as coisas embora. 

Achei simbólico que ela tenha justamente se despertencido do meu estojo quando estava recuperando a escrita de mim mesma. Ela que já escreveu muita carta de amor, de ódio, de reconciliação, listas, demagogias, tarefas, assuntos, bonequinhos de palito, frustrações, pitchs, brainstorms. Quando olho meus cadernos, ela está lá, o tempo não dissolve uma lapiseira que tem o poder de acompanhar toda a vida de uma mulher das letras. 

Nesta mesma semana do objeto roubado pelos pequenos seres, fui demover a poeira da parte inferior da cama, ali, onde todos são esquecidos, as meias, resto de pipoca, presilhas, tampas, recibos e plugs. E ela não pertencia àquele reino. Então desisti, daquele tipo de desistência da qual você continua olhando, como se na esperança pelo reencontro, mas querendo manter a integridade dos seres contemporâneos capazes de progredir desapegados - nunca serei.

Nesta mesma semana então, após faxina, telefonemas, pedidos de busca e apreensão da pentel 0.5 mm, dourada, que meu pai me deu aos 12 anos, com quem escrevi, descrevi e reescrevi tantos parágrafos soltos hoje por aí, também já era a outra escritora e profissional administrativa que precisava encontrar. Teria um CNPJ, a partir deste ano corrente prestaria as contas para a União e teria outro RG, do Estado de Minas Gerais, todos assinados por uma bic qualquer - porque nessas horas são as bics quaisquer de cinquenta centavos roubadas de outros seres que assinam os momentos mais definitivos e aterrorizantes de nossas vidas. As pentéis escrevem, deliram, divagam sobre uma pilha de pensamentos que jamais serão levados em consideração, enquanto as bics, com suas certeiras e indeléveis tintas azuis marcarão para sempre os nossos destinos. O meu destino. O meu presente, que de tão tosco e emparelhado decidi eu mesma me dar uma nova pentel 0.5 mm rosa choque, que é justamente para marcar a minha posse sobre o papel de carta, de cartão, de cartolina, de caderno, de caderneta, de bloquinho as palavras dessa nova espécie de eu - formada na escola de letras. Coisa que nenhum pequeno ser poderá tirar de mim.

um texto dedicado ao mês de junho

 definitivamente 4 semanas de  funga-fungas rinites no mínimo absurdas dedos gelados, pés duros o céu, porém, extremamente específico a luz ...