segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

o que você estava fazendo no 11 de setembro?



em 2001 eu tinha oito anos. Eu estava voltando de alguma atividade extra-curricular, tipo balé ou piano. Meu pai estava em pé em frente à televisão, volume alto. Ele dizia que aquilo iria mudar tudo, e enquanto eu assimilava o que "tudo" poderia ser, a segunda torre era derrubada ao vivo por um segundo avião. Por um minuto, achamos que era tipo uma reprise. Meu pai dizia "minha nossa senhora" em alemão. A moça do jornal, o pânico na cara, "daqui a pouco voltamos com mais informações". E meu pai trocava de canal e aí sim de novo e de novo a primeira torre, a segunda torre, ao vivo. Tem coisas que eu nunca vou esquecer. Essa é uma delas.

Primeiro porque depois desse episódio, eu li uma matéria da Times que alguém tinha feito o favor de traduzir para a Piauí (acho) que falava sobre o tédio americano, no sentido de a juventude experienciar muito desse tédio, desse desacreditar, como se águas paradas antes da tormenta. A esse sentimento implicava-se a repetição de acontecimentos já conhecidos, guerras no oriente, investimento massivo em tecnologia bélica e a continuidade do sistema capitalista como ele é conhecido por lá. Parece que de tanto experienciar essa realidade, fica-se à prova das consequências que brotam dela. E então eles acabaram por experienciar algo inédito, doloroso o suficiente, que trazia graves consequências de novo ao eixo do oriente e que reabria a discussão sobre identidade nacional e segurança. As pessoas tinham o que sentir, o que falar, sobre o que ter medo, sobre contra a qual lutar, etc. Viver é estranho. 

Ter lido isso, mais do que ter visto o avião derrubar ao vivo um segundo prédio gigantesco etc, me faz perceber o quanto somos expectadores para nosso próprio entretenimento - e não pela vigilância, e não pela proteção, quem se aproveita disso são os Outros (o colarinho branco da internet). A gente está pronto pelo próximo Charles Manson, pelo próximo massacre de Columbine, pelo próximo 11 de setembro, só que mais emocionante porque a gente já sabe desses episódios, revisitamos através do cinema, da literatura, dos encontros em família, das teorias conspiratórias. 

No fundo fica cada vez mais claro pra mim que as pessoas querem que tudo mude, mesmo que elas não saibam o que isso realmente significa. 






um texto dedicado ao mês de junho

 definitivamente 4 semanas de  funga-fungas rinites no mínimo absurdas dedos gelados, pés duros o céu, porém, extremamente específico a luz ...