Em Meu Ano de Descanso e Relaxamento, Ottessa Moshfegh desenrola uma história sobre o sofrimento de uma jovem nova iorquina que resolve tirar um ano sabático big phármico. A linha temporal que sustenta o enredo se alonga por um ano e meio, durante o qual captura o leitor para flashbacks da infância de uma criança abandonada, evidencia-se a enorme fenda de um casamento marcado pela falta de cumplicidade, intimidade e projeto familiar, pelos comportamentos autodestrutivos da mãe (balizados pelo abuso de álcool e fármacos) e pela ausência silenciosa do pai.
Ottessa Moshfegh escreve um romance sobre a ausência. A começar pela ausência de um nome a protagonista, indicação suprema da banalização de histórias de vidas marcadas pela infelicidade matrimonial, pela depressão, pelo abuso de fármacos, pelo esvaziamento de sentido das produções artísticas, pela superficialidade estética, pela busca incessante do alívio rápido, pela sufocante fragilidade, vulnerabilidade e solidão.
Órfã pelo câncer de seu pai e pelo suicídio de sua mãe, a protagonista herdeira tem apenas uma amiga próxima, amizade que merece enorme ressalvas, pela superficilidade no trato e nos gestos, laço apenas mantido em vista da conveniência, uma quer o status e a outra a pequenas parcelas de indulgência. A amiga, Reva, conclama as vozes de uma vida plena quando sofre distúrbios alimentares e passa por luto, trabalho no seio do estresse nova iorquino, falecido World Trade Center.A decisão por um ano de descanso e relaxamento começa logo após a demissão da protagonista, um local de trabalho que exala assédio, cuja combustão se dá pela banalização do fazer artístico. Para tal, ela então sai à procura de uma psiquiatra e encontra uma que pode responder à sua necessidade de manter-se dopada e em estado forçado de vigília. Ausente, como seus pais, sua amiga, sua profissão, sua vida. A protagonista passa a ser um campo de experimentação fármaco de uma psiquiatra cuja licença médica e comprometimento ético beiram o hilário. Tudo isso poderia ser ainda mais problemático se não fosse justamente por isso a razão da busca bem sucedida.
Após um ano em extrema intimidade com os efeitos e com as reações colaterais das dezenas de pílulas abusadas diariamente, a protagonista decide deprimir ainda mais o sistema nervoso central com o remédio que efetivamente a ausenta de toda vida “normal” por longos três dias, durante seis meses. Faz um pacto com um antigo colega de trabalho que sua vigília de sucesso seria alvo de uma performance artística para o qual ela concorda em troca de serviços de babá, pizza aos domingos, pijamas limpos e água com gás gourmet.
Quando retoma as chaves do próprio apartamento, trocadas para os últimos meses em hibernação, percebe que sua dor é apenas um grão de areia, imperceptível.Sonhamos para esquecer, para lembrar, para autorregular, para ultrapassar, para recorrer, para diagnosticar, dormimos. Dormimos para conseguir. Seja a razão mais íntima ainda merecedora de uma narrativa infinitamente bonita e triste, Meu Ano de Descanso e Relaxamento merece todos os prêmios e traduções. A história do burn out absoluto de todas formas correntes de se viver, em desequilíbrio com as demandas absurdamente ridículas, marcadas pela convivência com pessoas profundamente afetadas pelas violências do universo urbano é provavelmente uma das poucas histórias que realmente conhecemos.
Meu ano de Descanso e Relaxamento dialoga com uma vasta produção literária, musical e cinematográfica do sofrimento pós-moderno que se refere ao espaço vazio dentro de nós e pela multidão anônima com a qual vivemos todos os dias. Salpicam-se relações mal resolvidas, negação patológica e autodestruição fatal. Paul Thomas Anderson dedicou seus filmes mais conhecidos a histórias sobre a ausência, sobre o abandono, sobre o suicídio.
Lil Peep, Seymour Hoffman, Heath Ledger, Bojack Horseman, ícones, personagens que expuseram o estado febril da américa do norte. É sintomático a uma liberdade inexistente, mas performada, humanamente impossível de ser administrada on daily basis sem intervenções, sejam holísticas, sejam alopáticas. Em algum lugar se perdeu a espera pela grandiosidade, a interface mais conhecida da máquina operante nos Estados Unidos, aquela que celebra a imaginação e a expressão como direitos inquestionáveis, deu lugar à percepção imediata um país falido em matéria de amor, de comunidade, de saúde mental.

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