Existe sim uma força quase que centrípeta, um magnetismo incontrolável, uma vontade quando não um gozo em falar sobre ela: a foice inevitável do tempo. O pum de Deus isso aqui, viver, acordar, ir, se manifestar, fichas caindo, órbitas e colisões. Para então.
E são mortes de um tanto de tipo. Do meu tio Daniel e da forma como ele se foi, do Twitter, da internet social dos anos 2000, do trajeto que eu fazia entre 2006 a 2010. Das minhas pinturinhas com Kiwi. Outras muito mais duras e inexplicáveis - pessoas, sonhos e projetos que morreram cedo demais, antes que a eles eu pudesse dar rostos e viver cheiros.
Vivi lutos, inclusive, de fins ridículos. Das coisas que gostaria de ter dito e das coisas que gostaria de não ter dito, feito.
Mas não se vive uma vez: se vive e depois se revive as pequenas reminiscências - e largá-las assim, sem propósito, sem rituais, faz de mim uma espécie de outra pessoa. Versões minhas completamente estrangeiras.
E quando tudo isso para mim ser a última vez? o meu último banho com aquele sabonetinho que eu amo, o meu último gole de água com gás são lourenço (ou caxambu!!!), último céu completamente anil em maio, as folhas se desprendendo dos ipês rosas, uma espécie de silêncio úmido. eu que fico amuada quando um mísero xampoo é descontinuado, quem dirá quando eu perceber que estou perto de ser. pior: quando eu sonhar mais um daqueles sonhos que começam super tranquilos e terminam comigo em terceira pessoa vendo uma pessoa que eu não vejo há décadas numa espécie de areia albina sendo engolida por um pássaro gigante. não entender nada e ficar sabendo dias depois: essa pessoa se foi. e todas também um dia. e todas as coisas em geral. sem despedida, sem rituais.
as montanhas não. nem certas árvores. certos sapos. certos insetos. eles ficarão. e será aquela ladainha de novo: quem veio primeiro? algo me diz que uma pergunta possível seria: quem ficou por último?
tudo isso para dizer que tenho arrependimentos sim. mas também fiz escolhas felizes em momentos inacreditáveis (colisões) que giram em torno, uma espécie de força centrípeta, daquela sede inevitável: o amor?
sempre ele - no final. seja pela sua presença ou ausência. é isso que me mata.
ouvi tantas vezes esse podcast e se pudesse teria feito só isso.
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