domingo, 24 de janeiro de 2021

Meu Ano de Descanso e Relaxamento // Ottessa Moshfegh


Em Meu Ano de Descanso e Relaxamento, Ottessa Moshfegh desenrola uma história sobre o sofrimento de uma jovem nova iorquina que  resolve tirar um ano sabático big phármico. A linha temporal que sustenta o enredo se alonga por um ano e meio, durante o qual captura o leitor para flashbacks da infância de uma criança abandonada, evidencia-se a enorme fenda de um casamento marcado pela falta de cumplicidade, intimidade e projeto familiar, pelos comportamentos autodestrutivos da mãe (balizados pelo abuso de álcool e fármacos) e pela ausência silenciosa do pai. 

 

Ottessa Moshfegh escreve um romance sobre a ausência. A começar pela ausência de um nome a protagonista, indicação suprema da banalização de histórias de vidas marcadas pela infelicidade matrimonial, pela depressão, pelo abuso de fármacos, pelo esvaziamento de sentido das produções artísticas, pela superficialidade estética, pela busca incessante do alívio rápido, pela sufocante fragilidade, vulnerabilidade e solidão.

 

Órfã pelo câncer de seu pai e pelo suicídio de sua mãe, a protagonista herdeira tem apenas uma amiga próxima, amizade que merece enorme ressalvas, pela superficilidade no trato e nos gestos, laço apenas mantido em vista da conveniência, uma quer o status e a outra a pequenas parcelas de indulgência. A amiga, Reva, conclama as vozes de uma vida plena quando sofre distúrbios alimentares e passa por luto, trabalho no seio do estresse nova iorquino, falecido World Trade Center.
A decisão por um ano de descanso e relaxamento começa logo após a demissão da protagonista, um local de trabalho que exala assédio, cuja combustão se dá pela banalização do fazer artístico. Para tal, ela então sai à procura de uma psiquiatra e encontra uma que pode responder à sua necessidade de manter-se dopada e em estado forçado de vigília. Ausente, como seus pais, sua amiga, sua profissão, sua vida. A protagonista passa a ser um campo de experimentação fármaco de uma psiquiatra cuja licença médica e comprometimento ético beiram o hilário. Tudo isso poderia ser ainda mais problemático se não fosse justamente por isso a razão da busca bem sucedida.

 

 
Após um ano em extrema intimidade com os efeitos e com as reações colaterais das dezenas de pílulas abusadas diariamente, a protagonista decide deprimir ainda mais o sistema nervoso central com o remédio que efetivamente a ausenta de toda vida “normal” por longos três dias, durante seis meses. Faz um pacto com um antigo colega de trabalho que sua vigília de sucesso seria alvo de uma performance artística para o qual ela concorda em troca de serviços de babá, pizza aos domingos, pijamas limpos e água com gás gourmet. 

 

Quando retoma as chaves do próprio apartamento, trocadas para os últimos meses em hibernação, percebe que sua dor é apenas um grão de areia, imperceptível. 
Sonhamos para esquecer, para lembrar, para autorregular, para ultrapassar, para recorrer, para diagnosticar, dormimos. Dormimos para conseguir. Seja a razão mais íntima ainda merecedora de uma narrativa infinitamente bonita e triste, Meu Ano de Descanso e Relaxamento merece todos os prêmios e traduções. A história do burn out absoluto de todas formas correntes de se viver, em desequilíbrio com as demandas absurdamente ridículas, marcadas pela convivência com pessoas profundamente afetadas pelas violências do universo urbano é  provavelmente uma das poucas histórias que realmente conhecemos. 

 

Meu ano de Descanso e Relaxamento dialoga com uma vasta produção literária, musical e cinematográfica do sofrimento pós-moderno que se refere ao espaço vazio dentro de nós e pela multidão anônima com a qual vivemos todos os dias. Salpicam-se relações mal resolvidas, negação patológica e autodestruição fatal. Paul Thomas Anderson dedicou seus filmes mais conhecidos a histórias sobre a ausência, sobre o abandono, sobre o suicídio.

 

Lil Peep, Seymour Hoffman, Heath Ledger, Bojack Horseman, ícones, personagens que expuseram o estado febril da américa do norte. É sintomático a uma liberdade inexistente, mas performada, humanamente impossível de ser administrada on daily basis sem intervenções, sejam holísticas, sejam alopáticas. Em algum lugar se perdeu a espera pela grandiosidade, a interface mais conhecida da máquina operante nos Estados Unidos, aquela que celebra a imaginação e a expressão como direitos inquestionáveis, deu lugar à percepção imediata um país falido em matéria de amor, de comunidade, de saúde mental.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

if only

 Gosto de como eu me perco muito facilmente de quase tudo que me proponho. E gosto mais ainda de como tudo que me proponho nunca foge de um personagem que lembra muito eu, e gosto de como eu ainda não gosto de mim o suficiente para dive in. O que me move é a sensação de que tenho pouco tempo aqui, de que esvairei depressa demais. Mas quando eu tinha 16 anos me veio muito claro, enquanto eu escrevia uma redação sobre um assunto estúpido, e eu percebi que eu tinha agilidade em escrever mesmo sobre coisas desconhecidas e tediantes. Então acho que todos os meus impulsos eram tentativas de articular uma linguagem própria, não sei se alcancei essa linguagem necessariamente but what a journey this has been! 

Enfim, que 2021 me traga a força para me entregar de forma absoluta e profunda naquilo que eu acredito. Que eu possa articular todos os sentimentos, que eu possa comunicar de forma coerente e honesta, mas ainda com menos pesos e medidas. Sobretudo, quero voltar a estudar, preciso urgentemente ser menos burra, só isso que eu peço. E por último, escrever, escrever e continuar escrevendo. Abaixo segue uma pequena história que escrevi ontem (06/01/2021), se eu vencer minha preguiça pode ser que essa história renda. 


  1. nota de falecimento

Maria deixa alguns vasos de plantas e meia dúzia de amigos próximos desolados. Seu último respiro se deu às 12:35, vítima de parada cardíaca aos 38 anos. Ela era voluntária da Praça Amiga, grupo da terceira idade que revitaliza praças públicas, não tinha nem 10 dias ela transplantou um abacateiro vindo de Piraiçá, tinha dado o nome de Dendê. 

Maria Fernanda tinha alguns hábitos conhecidos pela sua vizinhança, como acordar muito antes de todo mundo e dar uma volta na rua com seu tênis azul furado e uma espécie de cajado com uma garrafa pet na ponta, e após cumprimentar Dona Nanci, Seu Valdomiro e cafungar os cachorros de Salma, ela trazia flores, frutos e sementes para sua casa. 

Maria Fernanda Assis não tinha dívidas ou pendências em seu nome, e já há muito tinha planejado o trimestre das 2 escolas onde dava aula, seus alunos compareceram ao seu enterro mas não entenderam como alguém tão jovem pode morrer de algo que mata sobretudo idosos. Mas Professora Maria Fernanda Assis vinha fazendo um bom trabalho nas escolas e ensinado sobre como cada vez menos existem eventos, situações e fenômenos explicados pelo caminho da lógica, “moramos num país livre”, ela dizia sempre. 

Maria Fernanda Assis escrevia poesias escondido, votava em partidos que sempre perdiam, vestia 38, tinha pés pequenos, 35. Nem 24 horas antes que tinha recebido uma visita na sua casa, era sua amiga Júlia, trazia um novo sabor de chá importado e um calhamaço de 500 páginas, sua tese de doutorado, acendeu um cigarro nervosa e pediu um favor, que lesse. Maria nunca dizia “não”.

Maria Fernanda Assis Cabral deixa muitos livros empoeirados e um kindle com 19 volumes não lidos, no entanto, uma grande prateleira acumula quase 732 cadernos. Sua cozinha, sempre impecável, neste dia com vestígios, canecas, cinzeiro, e uma travessa pequena com restos do que parecia lasanha. Ela costumava sentar na sua varanda às 16 horas para cuidar de suas plantas e sua última visualização no whatsapp foi às 10:38, na tentativa de ligar para o Samu, ninguém atendeu a tempo. Seu último post do instagram ela sorria junto a 32 crianças no que lembra uma excursão. Na sua carteira, um post it com 4 telefones, o do trabalho, o do orelhão público na praça da sua rua, de Júlia e do zelador do seu prédio. 

Ninguém sabe dizer, mas na mesa de apoio de frente ao sofá uma caixa de sapatos da nike carcomido por cupim jazia e dentro uma coletânea de cartas nunca enviadas, com selo, datadas. A última pessoa a ocupar seu apartamento e a contemplá-lo como se ali fosse um jardim foi justamente Júlia, distribuiu pertences como se entregasse partes deste mesmo coração que falhou em bater, pensando em como a única que poderia ter ficado deveria ter sido sua amiga, mas este é um país livre, inclusive para ir embora dele. Por fim, administrou um cigarro na boca, as duas mãos se ocupavam com caixas contendo cadernos e cartas. 

Maria Fernanda Assis Cabral, professora de literatura como ocupação central e facilitadora de projetos de hortas públicas e praças revitalizadas levava uma vida pacata no centro de Belo Horizonte quando morreu, aos 38 anos, no dia 28 de novembro deste ano, de infarto do miocárdio, seus últimos exames não continham informações que pudessem explicar este evento. 




sábado, 31 de outubro de 2020

Morning Journal - 31/10

Para esta jornada no interior de uma pequena baleia que dorme em cima de uma alga ancestral - leve cadernos.

-

Primeiro, não sabia muito bem o que escrever. Ao mesmo tempo, que as insurgências à vista. Uma viagem este mês, posso dizer isso. Esses meses e sobretudo este ano, uma jornada, sim, talvez como se fosse uma jornada no interior de uma pequena baleia dormindo em cima de uma alga ancestral. Uma baby baleia. 
Amo este álbum: St. Vincent Deluxe, every tear disappear. 

Uma saudade imensa de escrever redações sobre férias - mas já tinha esquecido como se pronunciava férias. Uma enorme desconfiguração dos caráteres e sobretudo o meu próprio, eu precisei reencontrar quais e de que maneira arcar com as decisões: assumir um personagem.

Então nada muito justo, declaro que este ano foi de trabalho, não sei em por onde anda meu saturno, algo me diz que na casa do caralho. Ou capricórnio? Se movimente, humana. 
Ginásticas. Então assim: eu lutei. Sabe, eu lutei. 
-
Outra coisa, 2019 me deu uma solidão que eu não pedi (mesmo cercada de gente¿).
Mas 2020 me deu a paz que essa solidão queria de mim, então este conflito não é mais existencial. Não são mais meses sem a paz que dá conta de uma leitura de livro, segurar o livro com as duas mãos e efetivamente: lê-los. Como se todos os estímulos externos tivessem perdido essa batalha. 
Mas não a guerra.
100% burned out de internet ( e ainda aqui, irônico!).
-

Ainda ecoa em mim:
"Entre tantas coisas no fim de um relacionamento, é uma língua que se extingue." 
E gosto de pensar no seu contrário - que são relacionamentos que falam novas línguas? 
Fui à São Paulo e nesse momento ouvia a cidade, e nas conversas das pessoas elas relatando como foram de quarentena, com quem estiveram, o que perderam. Senti lá um ciclo dando boas vindas, e de fato, uma fluência em uma língua sem gramática. Passei muito frio inclusive, nove fucking graus no meio de outubro, o que???

-
Não quero ser entendida, se quisesse eu teria feito uma dissertação. Cês acreditam que eu SONHEI com essa frase e me senti contemplada? Gostaria de ter contexto para dizer isso, então inventei este texto. 
-
A ideia de que se pode escrever sem se preocupar em ser entendida é um alívio, haja vista as simulações e estar realmente kkk on. Online para entender, sim eu entendo, e respondo e ensaio uma ação e tudo é um gasto de energia absurdo.
-
Percebi que aeroportos me colocam no estágio mais alto da produção textual. Olhando para o mar esses dias eu pensei: quero escrever um livro. E não sei como começar, então estou investigando. 


(este exercício consiste em escrever o que vem à cabeça, de preferência às manhãs. uma escrita livre, sem pudor, sem borrachas - sobre o que vier. quando lembro, faço este exercício e sinto que desmancho uma força que parece vir de dentro, sei lá)


sexta-feira, 8 de maio de 2020

covdezenove



a angústia do caos também está na busca pela cura, pelo ponto final, mesmo que metafórico. mas a maior das angústias talvez seja se dar conta de que, mesmo nos textos, os pontos finais anunciam começos. um gira-gira imprevisível que folga e aperta. quando tudo supostamente for declarado viável de novo, vou continuar usando máscaras. 

são quase décadas respirando um ar tão rarefeito quanto debaixo da máscara; entre tantos surtos, suspiros e alívios percebo que são as telas, mesmo as frestas que me protegem. ou são essas fronteiras e entre elas a ideia de que há proteção, ou quem sabe o desejo. o erro do ocidente está na interpretação dos textos que prometiam salvação, como um evento final, contra o qual nem mesmo os abalos sísmicos, os vulcões, as erosões seriam capazes de reverter. está salvo o homem de seus pecados. 

o tempo em espiral, a repetir e contorcer os mecanismos de proteção nos colocaram a sentir que mesmo dentre tantas curas estamos aqui pelos batimentos cardíacos. e que um coração bate até não bater mais. estamos curados até não estar mais. e assim sucessivamente até deformarmos a paisagens com nossos corpos cavados nelas. 

o fim nem mesmo na morte está, quando as tangerinas apodrecem elas viram como se fossem uma gosma que se você juntar às demais tangerinas do mundo, o sumo podre é capaz de fazer bebês alhos-porós felizes. são também as decomposições que envergam as vivências. mesmo as coisas que matam, como terremotos, capitalismo, doenças e etc revivem ódio, incerteza, pânico. 

dentro das intenções, dos esforços, das vontades, dos desejos pela cisão definitiva do sofrimento ele se mostra o material de transformação das coisas vivas; do aprendizado; da adaptação; da sucessão de poderes; do aumento; da diminuição. mesmo a estática engana, muitas das estátuas só estão ali por convenção de sua importância naquele recorte histórico. 





terça-feira, 24 de março de 2020

como se fosse





como se fosse a casa, P.45

as casas abandonam a si mesmas
fogem de si mesmas
um dia você retorna
e a casa não está mais lá
está apenas seu molde 
casca ou carcaça
sai então à caça
da casa 
em viagem 
ou fica lá
onde já não está


Ana Martins Marques, eu não conhecia até reconhecer nos poemas dela alguma coisa incomunicável mas que lembra os desdobramentos comuns, a casa, a ideia de pertencimento, e sobretudo seu contrário, despertencer, esvair-se, buscar mesmo no fim da internet e desistir de encontrar, e então perceber. em mim, em nós, em você.

Reside na minha preocupação, na ânsia e nas vigílias noturnas como vim parar aqui e mesmo recorrendo aos recursos todos, mesmo sabendo que fui eu que vim parar aqui, ainda me parece alheio estar aqui. que são essas memórias, eventos e sentimentos que compõem um registro mais ou menos fiel da minha chegada e partida. que nas várias casas eu busquei uma casa, e como isso não era possível no momento eu saí realmente à caça. não sei se de uma casa mesmo, talvez tivesse saído para desconhecer as fundações e avistar nas semelhanças de trajeto um lugar. 

eu gosto muito das abstrações que sustentam o "como se fosse". como se a gente pudesse fazer tantas coisas e como se fossem essas coisas que determinariam tantas outras coisas, mas como a gente pode fazer coisas em número limitado a gente meio que acaba determinado. e como estão nos lugares as pistas do nosso alvoroço, se perder e sobretudo esquecer que está perdido e perceber. em mim, em nós, em você.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

tudo que eu sou demora



é uma pena a vida em quinze minutos calçar sapatos comer e escovar os dentes e acreditar
que essas são as etapas que farão tudo dar certo nas próximas 24 horas mas no meio do caminho um sinal de pare mais demorado que o costume e todo um planejamento
se esvai

é uma pena
calçar sapatos para aguentar
comer para conseguir
escovar os dentes para sorrir
sem culpa
e do início ao fim
olhares e cobranças: depois eu te mando um e mail explicando melhor a situação
é que as coisas saíram do controle enquanto eu estava tirando cópias
mas eu consegui reverter a situação
vestindo um
traje à rigor
ninguém percebeu que eu
sou
uma farsa

é uma pena
realmente
que eu não tenha conseguido comer
calçar o par adequado
e sorrir para um dia
incontrolável
eu sinto que tudo que eu sou
demora
para ser outra coisa fora de mim
mas dentro
permaneço a atriz que preciso ser








sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

just the same but brand new



ainda sobre meu processo no tcc eu escrevi sobre a morte. para além do tcc em si, mas a fase em que eu estava. meio que jogando papéis fora, dando objetos acumulados para amigos, me convencendo da escolha de mudar assim abruptamente como uma atitude madura, e fechando ciclos, dizendo até logo mais para tantos e querendo que tudo coubesse em uma mochila. 

mas além de a morte gerar reflexões altamente angustiantes, eu não sabia como abordá-la e apresentá-la como uma experiência legítima - uma escrita com a qual eu tivesse a mínima relação apesar de sempre ter a morte como tema ou fenômeno próximo a mim. 

de um texto o qual tenho para mim como muito próximo, St Vincent afirma que enquanto estamos no processo é difícil processá-lo. Eu não conseguia escrever porque não tinha internalizado, percebido, sentido aquele momento - profundamente doloroso e amplamente confuso.

Só agora, depois de praticamente dois anos desse lugar é que eu entendo o que é morrer metaforicamente, talvez a única forma de apreciar a morte como ela o é enquanto vivos.

Entendo só após meses no silêncio que precede a sensação próxima de estar livre: 

a) parece que os obscuros processos precisam de paciência de muitas partes, mas principalmente da parte com a qual você tem que conviver todos os dias: você mesmo. 

b) parece que quando você sabe que você está deixando alguma coisa muito significativa da forma que é ser significativa de outra forma você está já aceitando o fim.

c) sou ainda mais profundamente agradecida por todas as pessoas, meus amigos, meus pais, que reconheceram alguma coisa em mim que não se revelaria até eu morrer e que até hoje eu custo a descobrir. 

-
meses antes de entrar nessa obsessão pela morte eu:

. tinha passado por relacionamentos que foram escolas, mas o mais modificador de todas as naturezas - no como dizer, no como compartilhar, no quando ouvir, no quando ser a sensatez - com certeza diz muito sobre aquele dia em que eu pela primeira vez quis de verdade que eu pudesse respeitar que só porque uma coisa é muito linda não significa que vai durar e que isso não precisa se tornar um ultimato do que foi construído, mas querer que a comunicação sirva para que depois cada uma das partes consiga mandar e-mails longos sobre como cada um luta em diferentes partes e acredita no outro, admira o outro e o deseja o melhor. 

. tinha conhecido verdadeiros adultos, que viveram o silêncio e tinham muito dele em si e que talvez essa seja a coisa mais atraente sobre alguém.

. tinha aprendido a reconhecer limites, sobretudo os emocionais. ultrapassá-los prevê uma elasticidade que pode ser uma das explicações sobre a morte. 

-

se eu soubesse que tudo daria em mel, eu teria acalmado essa pessoinha que vos escreve. mas eu disse, eu disse muitas vezes a mim mesma que eu estava ali. e que existia muito amor no mundo, e que aquele ninho quentinho serviria para reafirmar as trajetórias que nos mostram quem realmente somos - para nós e para outros.

mas eu não sabia.

eu fiz o melhor que eu pude entendendo que para entender a morte e conseguir escrever sobre ela eu teria de: morrer.

(just the same but brandnew)

ocasiões




- entre:

a jovem que eu não consigo mais ser
&
a adulta que ainda preciso me tornar.

uma lacuna de nós duas
feita
à serviço de alguma coisa
para depois daqui

estamos fechando para abrir melhor
(a quem)
expansão em desenvolvimento
palavras que não mudam fácil
como o vento

nós estamos aqui
para onde quer que eu vá
sentindo pensando atrasando and correndo

e por mais terrível que o que era pra ser bonito seja
mais do que isso é quando nada há
para sentir, errar

nós estamos aqui
para onde quer que eu vá
alguém melhor do que eu
do que nós
não irá nos salvar
acredite que mesmo da mais profunda
imersão no vazio
alguma vontade pode simplesmente se revelar

e quando corpo e desejo se fundirem
quem sabe
continuaremos aqui
apesar
da jovem que queria ser
e
da adulta que jamais será






segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

o que você estava fazendo no 11 de setembro?



em 2001 eu tinha oito anos. Eu estava voltando de alguma atividade extra-curricular, tipo balé ou piano. Meu pai estava em pé em frente à televisão, volume alto. Ele dizia que aquilo iria mudar tudo, e enquanto eu assimilava o que "tudo" poderia ser, a segunda torre era derrubada ao vivo por um segundo avião. Por um minuto, achamos que era tipo uma reprise. Meu pai dizia "minha nossa senhora" em alemão. A moça do jornal, o pânico na cara, "daqui a pouco voltamos com mais informações". E meu pai trocava de canal e aí sim de novo e de novo a primeira torre, a segunda torre, ao vivo. Tem coisas que eu nunca vou esquecer. Essa é uma delas.

Primeiro porque depois desse episódio, eu li uma matéria da Times que alguém tinha feito o favor de traduzir para a Piauí (acho) que falava sobre o tédio americano, no sentido de a juventude experienciar muito desse tédio, desse desacreditar, como se águas paradas antes da tormenta. A esse sentimento implicava-se a repetição de acontecimentos já conhecidos, guerras no oriente, investimento massivo em tecnologia bélica e a continuidade do sistema capitalista como ele é conhecido por lá. Parece que de tanto experienciar essa realidade, fica-se à prova das consequências que brotam dela. E então eles acabaram por experienciar algo inédito, doloroso o suficiente, que trazia graves consequências de novo ao eixo do oriente e que reabria a discussão sobre identidade nacional e segurança. As pessoas tinham o que sentir, o que falar, sobre o que ter medo, sobre contra a qual lutar, etc. Viver é estranho. 

Ter lido isso, mais do que ter visto o avião derrubar ao vivo um segundo prédio gigantesco etc, me faz perceber o quanto somos expectadores para nosso próprio entretenimento - e não pela vigilância, e não pela proteção, quem se aproveita disso são os Outros (o colarinho branco da internet). A gente está pronto pelo próximo Charles Manson, pelo próximo massacre de Columbine, pelo próximo 11 de setembro, só que mais emocionante porque a gente já sabe desses episódios, revisitamos através do cinema, da literatura, dos encontros em família, das teorias conspiratórias. 

No fundo fica cada vez mais claro pra mim que as pessoas querem que tudo mude, mesmo que elas não saibam o que isso realmente significa. 






sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

young and beautiful





Não - não será hoje o monotema "tudo que perdi em nome de"
Não - não será hoje a fartura do vinho que desce ao contrário
Não - não será hoje que eu começarei pelo começo, ao narrar sobre o fim
Sim - nem todos os dias são os mesmos dias

Alguns mais perto, outros tão longe... mas nenhum assim tão fora que não possam
adentrar no meu calendário de encontro imaginários
Em que reinvento os diálogos que nunca tive
E me perdoo pelos erros que nunca cometi

Alguns mais óbvios, outros mais discretos... mas ainda assim
eu não tenho compromisso nenhum com a verdade dos fatos
contanto que minha memória entenda que naquele dia tudo indicava
os semáforos abertos as mãos dadas e dois carrinhos de rolimã
que iriam colidir no absoluto despovoamento dos nomes das coisas

Não - nem todos os dias são os mesmos dias
nem as noites serão as mesmas noites
quando em mim, uma caverna
quando de mim, uma vela
quando do nada, o absoluto.

Mas hoje eu quero não violar a única forma de amor possível
e tematizar sobre qualquer coisa fora de meu controle
longe do meu espelho
impossível para o alcance míope de minha visão
improvável para a análise que se auto anuncia

Porém, são os dias longes de mim o único hoje pra agora
E do monotema que se declara, as poesias
O insuperável
Aquele dia em que os semáforos nem estavam aberto, e éramos dois
carrinhos de rolimã que colidiram no absoluto desconhecimento
dos nomes que viriam depois
quando passaríamos a nomear as coisas pelos dicionários
pela geografia
pela identidade
pela conformidade
pelo fim
para os vinhos.

Para que não - que não nos indispuséssemos mais.








domingo, 8 de dezembro de 2019

"do engano imaturo que esconde aquele grande amor"

Queria que esse fosse um caderninho bonito - praticamente novo. 
Mas oh no! já rasurei com deep communications problems
i feel like getting cold
But darling não era isto o que você queria?
Olhar para cima e desconhecer a direção 
os lugares para onde ir quando
se está procurando por algo que não tem nome 
sorry something went wrong
inúmeros jovens perdidos em infinita grandeza
estilinho cabelo no pentinho mas
incontáveis humilhações até o despejo
minha amiga que está perguntando:
como faz para se sentir bem e viver tranquila
by day?
mas querida y amada 
by night?
nunca saberemos

“tudo dará certo, vc vai ver”
kkkkkkkkkkkkkk
skincare, tarot pelos correios
chakras, aqueta essa por mim

vamos combinar de sair então
mas saio para buscar meu próprio bolo
e volto para casa numa tentativa de falar comigo através de 750ml 
de uvas fermentadas
e só então
and only then
me acho no espelho: bonita?
engraçada? uma grande gostosa?
as minhas próprias noias que vieram 
dessa vontade indefinida de preservar os cadernos bonitinhos
o cabelinho no dente
a pele sem peso rasura dobra
mas oh no! tudo aqui é velho gasto e conhecido
como imaginar os caminhos possíveis para casa

em dias de chuva vento e trânsito

* esse título foi retirado de uma música do jaloo
** essa poesia dessa forma é apenas uma decisão provisória

um texto dedicado ao mês de junho

 definitivamente 4 semanas de  funga-fungas rinites no mínimo absurdas dedos gelados, pés duros o céu, porém, extremamente específico a luz ...