percorro o sinistro, e nele esbarro
num glossário em aberto.
um contexto geográfico: a cordilheira do espinhaço é a maior do Brasil. ela estabelece sua infinita grandeza em terras mineiras, entre Serra do Cipó e Lapinha da Serra. as montanhas se entrelaçam até a Bahia, desaguando na Chapada Diamantina.
fico pensando na ancestralidade dessas montanhas, os segredos guardados em suas grutas, silêncio milenar abafado entre vales. me pergunto quantas pessoas romperam com a sociedade e decidiram fazer do seu presente estrada permanente, percorrendo quilômetros, anos e vidas, atravessando mágoas, angústias e saudades.
dessa janela sem esquadrias me pergunto onde estará tudo que me levou aqui. e porque decidi voltar a esse lugar depois de dez anos. e porque são as décadas os marcos temporais para meu regresso, quando não minha partida.
o que são dez anos para essas montanhas? penso eu. em dez anos eu me movi de mim: mudei de cidade, mudei de casa trezentas vezes, perdi e ganhei e mantive amizades, mudei de emprego, de profissão. comecei do zero algumas vezes. e assim como essa paisagem já não é mais oceano, eu também já não sou tantas coisas, e por isso o espanto de ver que o tempo, embora o mesmo, em distribuição desigual. o que são dez anos para essas montanhas?
nunca saberia dizer se tudo que ouvi foi som ou apenas eco. ou se tudo que vi foi fotografia ou cópia. se atravessei ou fui atravessada.
é sempre um pouco assim: um pouco disso tudo revolucionando meu nada.
não quero que seja em dez anos o nosso próximo encontro.
desejo que seja em dez meses.
quando eu subir aqueles dois quilômetros de novo, não quero fazê-lo em minutos, mas horas. quero fazer daquele caminho um amuleto. quero ter aquele sossego de quando toda sua energia está em manter o coração dentro dos limites da caixa torácica. e sobretudo, desejo imensamente ter essa memória para sempre comigo mesmo que eu já não suba mais montanhas, ou que não atravesse mais rios.
para mim, essas montanhas são personagens centrais de um filme documental que continua sendo editado.
um perfil, para sempre, em mosaico.